segunda-feira, 11 de novembro de 2013

A SEMIOLOGIA DE SAUSSURE

Referência

FIDALGO, Antonio.  A linguística de Saussure e a ideia de Semiologia. In:  Semiótica: a lógica da comunicação. Covilhã: Universidade da Beira Interior, 1998. (Clique aqui para acessar o texto).

A tradição da semiótica europeia contemporânea assenta na obra de Ferdinand de Saussure, particularmente no Curso de Linguística Geral
Um dos contributos essenciais de Saussure para a linguística consiste na fixação da língua como sistema semiológico.
Aspectos discutidos por Fidalgo:

1) DISTINÇÃO LÍNGUA/FALA;
2) CARACTERÍSTICAS DO SIGNO LINGUÍSTICO;
3) UNIDADE E IDENTIDADE E DO SIGNO LINGUÍSTICO / A NOÇÃO DE VALOR ;
4) RELAÇÕES SINTAGMÁTICAS E PARADIGMÁTICAS.

Para acessar os slides da aula, clique aqui.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

AS TRICOTOMIAS PEIRCEANAS
Classificação dos signos

Referência:
SANTAELLA, Lúcia. O que é semiótica. São Paulo: Brasiliense, 2007.

A partir da divisão das partes que interagem na constituição do signo, Peirce estabeleceu classificações triádicas (tricotomias) dos tipos possíveis de signos (2007, p.83).

As três tricotomias mais conhecidas consideram a relação:

1º) do signo consigo mesmo (ou seja, seu representâmen);
2º) do signo com seu objeto (dinâmico);
3º) do signo com seu interpretante.



1ª TRICOTOMIA (signo em relação a si mesmo): organiza os signos a partir das características do representâmen (do próprio signo).
- O quali-signo é uma qualidade sígnica imediata, tal como a impressão causada por uma cor. O quali-signo é uma espécie de pré-signo, pois se essa qualidade se singulariza ou individualiza, ela se torna um sin-signo.
Ex.: as impressões que as cores azul e rosa podem causar em um indivíduo, antes de singularizadas, são quali-signos, meras sensações ou qualidades.

- O sin-signo é o resultado da singularização do quali-signo. A partir de um sin-signo pode-se gerar uma ideia universalizada (uma convenção, uma lei que substitui o conjunto que a singularidade representa), tornando-se assim um legi-signo.
Ex.: se o indivíduo acha que as sensações são de seriedade, para o azul, e de de-licadeza, para o rosa, é porque ele percebe essas cores dessa forma singular.

- O legi-signo é o resultado de uma impressão mediada por convenções, por leis gerais estabelecidas socialmente.
Ex.: a idéia geral de que "azul transmite seriedade e deve ser associada ao sexo masculino" e "rosa transmite delicadeza e deve ser associada ao sexo feminino" é uma convenção. Essa idéia se tornou uma lei geral, culturalmente convencionada em nossa sociedade. Trata-se agora de um legi-signo.

2ª TRICOTOMIA (signo em relação ao objeto dinâmico): organiza os signos conforme a relação entre ele e o objeto que ele substitui.
- O ícone representa uma parte da semiose em que se destacam alguns aspectos qualitativos do objeto. O ícone é o resultado da relação de semelhança ou analogia entre o signo e o objeto que ele substitui.
Ex.: um retrato ou uma caricatura são semelhantes aos objetos que eles substituem; eles são signos icônicos.

- O índice, assim como o sin-signo, resulta de uma singularização. Um signo indicial é o resultado de uma a relação por associação ou referência. A categoria indicial se evidencia pelo vestígio, pelos indícios.

Ex.: rastros de pneus, pegadas ou cheiro de fumaça não se parecem com os objetos que eles substituem (pneus, animais ou a fumaça), mas nós associamos uns aos outros, respectivamente; são exemplos de signos indiciais.



- O símbolo resulta, tal como o legi-signo, da convenção. A relação entre o signo e o objeto que ele representa é arbitrária, legitimada por regras.
Ex.: a pomba branca é símbolo de paz, um retângulo verde com um losango amarelo, círculo azul e estrelas é um dos símbolos do Brasil, mas em nenhum des-ses casos há relação de semelhança ou de associação singular; trata-se de regras, leis convenções.


3ª TRICOTOMIA (relação entre o signo e o interpretante): organiza os signos a partir da sua relação com as significações desse signo.

- Em lógica formal, o rema corresponde ao que se chama de termo, isto é, um enunciado impassível de averiguação de verdade. Uma palavra qualquer ("menino", por exemplo) fora de um contexto sintático é um rema.
- Se a palavra "menino" se insere em uma sentença, como em "o menino está doente", podemos verificar seu grau de veracidade. Em lugar de um termo, temos uma sentença; em Semiótica, essa sentença chama-se dicente (dici-signo ou dissisigno). Investigamos se o menino está verdadeiramente doente porque a sentença não nos forneceu os motivos pelos quais se afirmou isso, mas temos elementos para tal averiguação.
- Se houvesse informações comprobatórias, não se trataria mais de um dicente, mas de um argumento. A sentença "O menino está doente porque apresenta manchas vermelhas e temperatura alta” traz um raciocínio completo, justificado, com caráter conclusivo. Nesse caso, temos então um argumento.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Exercício n.1
(clique aqui para baixar o documento) 


sexta-feira, 11 de outubro de 2013

O SIGNO PEIRCEANO

REFERÊNCIA

SANTAELLA, Lúcia. O que é semiótica. São Paulo: Brasiliense, 1983.

"O signo é uma coisa que representa uma outra coisa: seu objeto. Só é signo se carregar essa capacidade de representar outra coisa. O signo não é o objeto – não pode se confundir com o objeto." (p.58)
  • Uma foto representa o objeto fotografado (pessoa, paisagem etc.). Essa foto não é o objeto e só pode funcionar como signo justamente porque carrega a capacidade de substituir/representar seu objeto.
"O significado de um signo é sempre um outro signo — seja este uma imagem mental ou palpável, uma ação ou mera reação gestual, uma palavra ou um mero sentimento de alegria, raiva... uma ideia, ou seja lá o que for — porque esse seja lá o que for, que é criado na mente pelo signo, é um outro signo (tradução do primeiro)". (p.59)
  • Trata-se do caráter dinâmico do signo. Como somos seres de linguagem — porque só nos expressamos por meio de uma linguagem —, o resultado de uma interpretação será sempre outro signo, sujeito também a ser interpretado, e assim sucessivamente.
"O signo é um complexo de relações" (p.61).

Santaella explica que o signo não é uma coisa monolítica. Podemos dizer que ele é o resultado de uma relação complexa entre representação (a coisa que se mostra) e interpretação (o que se entende sobre essa coisa).
Entre essas duas instâncias (a da representação e a da interpretação), há uma série de interferências socioculturais, políticas etc. que criam condições tanto para a existência do signo quanto para a nossa interpretação. Pensemos, por exemplo, como a pomba branca passou a simbolizar a paz. Mesmo que não saibamos a história dessa representação, sabemos o suficiente para entender que se trata de uma criação humana. Além disso, ainda na instância da representação, sabemos que a pomba branca é símbolo de uma ideia de paz.
A canção Minha Alma (A paz que eu não quero) do grupo O Rappa questiona essa ideia de paz, o que significa que essa ideia também é um signo (igualmente simbólico).

Agora pensemos em nossa interpretação: por que nós associamos a imagem de uma pomba branca à paz? Por que entendemos "paz" mais ou menos do mesmo jeito? A resposta está ligada à nossa formação cultural, ao fato de essa associação ser convencional e de se repetir tanto a ponto de se criar uma relação que supomos "natural" (embora seja arbitrária) entre a imagem da pomba e essa ideia de paz.

A CONSTITUIÇÃO DO SIGNO SEGUNDO PEIRCE

Para Peirce, o signo se constitui a partir de três elementos:
  • Representamen: aquilo que funciona como signo para quem o percebe;
  • Objeto: aquilo que é referido pelo signo;
  • Interpretante: o efeito do signo naquele (ou naquilo, incluindo outros seres vivos ou dispositivos comunicativos inumanos, como os computadores) que o interpreta, dentro de um contexto de significação; “processo relacional que se cria na mente do intérprete” (p.57).
Ocorre que, na semiótica peirceana, um signo tem dois objetos e três interpretantes.
Clique para ampliar

Considerando que o representamen (o que se mostra do signo) é o círculo, temos um "complexo de relações", constituído pelos seguintes elementos:

Objeto dinâmico: aquilo que é substituído. O objeto “em si”.
Objeto imediato: modo como o objeto dinâmico está representado no signo.
Interpretante imediato: aquilo que o signo está apto a representar na mente do intérprete; virtualidade do signo; sua capacidade de representar algo.
Interpretante dinâmico: aquilo que o signo produz na mente do intérprete.
Interpretante em si: tradução do signo anterior em um outro signo. Esse outro signo, de caráter lógico, consiste não apenas no modo como uma mente reage ao signo, mas no modo como qualquer mente reagiria, dadas certas condições.

AS CATEGORIAS DO PENSAMENTO E DA NATUREZA

REFERÊNCIAS
SANTAELLA, Lúcia. O que é semiótica. 26 reimp. São Paulo: Brasiliense, 2007.
BERNARDO, Gustavo. Fenomenologia (verbete). In: CEIA, Carlos (Org). E-dicionário de termos literários. Disponível em: 
http://www2.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/F/fenomenologia.htm. Acesso em: jan.2008.

I) “UMA ARQUITETURA FILOSÓFICA”

No capítulo “Para se ler o mundo como linguagem”, Santaella tece algumas considerações sobre o trabalho mais geral de Charles Peirce, no âmbito filosófico.

- Para Peirce, “a primeira instância de um trabalho filosófico é a fenomenológica” (SANTAELLA, 2007, p.28).

- “A tarefa precípua de um filósofo é a de criar a Doutrina das Categorias, que tem por função realizar a mais radical análise de todas as experiências possíveis” (2007, p.28).

- “Insatisfeito com as categorias aristotélicas, consideradas como categorias mais lingüísticas do que lógicas, [...] influenciado por Kant, mas considerando suas categorias [...] como [...] materiais e particulares e não formais e universais, Peirce dedicou grande parte de sua existência à elaboração, aperfeiçoamento e ampliação do campo de aplicação das suas categorias universais” (2007, p.28).

- Tais categorias “não brotaram nem de pressupostos lógicos, nem da língua, mas do exame atento e perscrutante da ‘experiência’ ela mesma” (2007, p.28).

- “A Fenomenologia (*), como base fundamental para qualquer ciência, meramente observa os fenômenos e, através da análise, postula as formas ou propriedades universais desses fenômenos. Devem nascer daí as categorias universais de toda e qualquer experiência e pensamento” (2007, p.28).

- “Numa recusa cabal a qualquer julgamento avaliativo a priori, a Fenomenologia é totalmente independente das ciências normativas” (2007, p.28).


(*)FENOMENOLOGIA
O termo “fenomenologia” provém de duas palavras gregas – phainomenon (fenômeno) e logos (estudo, ciência). O sentido mais imediato do termo, portanto, remete à ciência ou ao estudo dos fenômenos.
Num sentido mais amplo, a fenomenologia pode ser pensada como uma investigação filosófica, já que ela parte dos fenômenos (aquilo que se apresenta) para lhes conferir uma unidade de sentido.
“A fenomenologia é uma espécie de método que faz a mediação entre o sujeito e o objeto ou, dizendo de outro modo, entre o eu e a coisa” (BERNARDO).
Para Edmund Husserl, conhecido como o fundador da fenomenologia moderna, todos os fenômenos, da mesa mais simples ao evento mais complexo, são reais à medida que compreendidos pela consciência” (BERNARDO).
Tudo nos é informado pelos sentidos e transformado em uma experiência de consciência (em um fenômeno que consiste em se estar consciente de algo). Coisas, imagens, fantasias, atos, relações, pensamentos, eventos, memórias, sentimentos, etc. são fenômenos que constituem nossas experiências de consciência.
"Nós nos apegaríamos à fé na realidade de mesas e mentes porque a concretude do mundo vivido é coberta por grossas camadas de preconceito que nos fazem acreditar em objetos e em sujeitos. É necessário remover ou reduzir essas camadas” (BERNARDO).
"Os objetos devem ser libertos para revelar o que são: nós abstratos de intenções. Esse é o processo conhecido como redução fenomenológica (isto é, do fenômeno)” (BERNARDO).
Da mesma forma, “o eu deve ser liberto para conhecer o que realmente sou: um outro nó abstrato do qual as intenções emanam – essa seria a redução eidética (isto é, do ser).
“Os dois movimentos tornam possível e consciente a sinngebung (isto é, a doação do sentido)” (BERNARDO).

- Entendendo fenômeno como qualquer coisa que esteja de algum modo e em qualquer sentido presente à mente (qualquer coisa que apareça, de modo externo (uma batida na porta, um raio de luz, um cheiro de jasmim), ou interna (uma dor no estômago, uma lembrança ou reminiscência, uma expectativa ou desejo), “a fenomenologia seria, segundo Peirce, a descrição e análise das experiências que estão em aberto para todo homem, cada dia e hora, em cada canto e esquina de nosso cotidiano” (2007, p.32).

- “A fenomenologia peirceana começa, pois, no aberto, sem qualquer julgamento de qualquer espécie: a partir da experiência ela mesma, livre dos pressupostos que, de antemão, dividiriam os fenômenos em falsos ou verdadeiros, reais ou ilusórios, certos ou errados. Ao contrário, fenômeno é tudo aquilo que aparece à mente, corresponda a algo real ou não” (2007, p.32.).

- “Trata-se, portanto, de um estudo que, suportado pela observação direta dos fenômenos, discrimina diferenças nesses fenômenos e generaliza essas observações a ponto de ser capaz de sinalizar algumas classes de caracteres muito vastas, as mais universais presentes em todas as coisas que a nós se apresentam” (p.33).

Para Santaella, são três as faculdades que devemos desenvolver para essa tarefa:
  • capacidade contemplativa, isto é, “abrir as janelas do espírito e ver o que está diante dos olhos”;
  • capacidade de distinguir, discriminar diferenças nessas observações;
  • capacidade de generalizar as observações em classes ou categorias abrangentes (2007, p.33.)
- “Considerando experiência tudo aquilo que se força sobre nós, impondo-se ao nosso reconhecimento, e não confundindo pensamento com pensamento racional (deliberado e auto-controlado), pois este é apenas um dentre os casos possíveis de pensamento, Peirce conclui que tudo que aparece à consciência, assim o faz numa gradação de três propriedades que correspondem aos três elementos formais de toda e qualquer experiência.” (2007, p.33.)

“Em 1867, essas categorias foram denominadas: 1) Qualidade, 2) Relação e 3) Representação” (2007, p.35).

- Depois, o termo relação foi substituído por reação e o termo representação recebeu a denominação mais ampla de mediação. Mas, para fins científicos, Peirce preferiu fixar-se nos termos Primeiridade, Secundidade e Terceiridade, por serem palavras inteiramente novas, livres de falsas associações a quaisquer termos já existentes (2007, p.35).

- “Para se ter uma idéia da amplitude e abertura máxima dessas categorias, basta lembrarmos que, em nível mais geral, a 1º corresponde ao acaso, originalidade irresponsável e livre, variação espontânea; a 2º corresponde à ação e reação dos fatos concretos, existentes e reais, enquanto a 3º categoria diz respeito à mediação ou processo, crescimento contínuo e devir sempre possível pela aquisição de novos hábitos” (2007, p.39).

- “O 3º pressupõe o 2º e o 1º; o 2º pressupõe o 1º; o 1º é livre. Qualquer relação superior a três é uma complexidade de tríades” (2007, p.39).

- Essas três categorias irão para o que poderíamos chamar três modalidades possíveis de apreensão de todo e qualquer fenômeno. Certamente há infinitas gradações entre essas modalidades. Elas se constituem, no entanto, nas modalidades mais universais e mais gerais, através das quais se opera a apreensão-tradução dos fenômenos” (2007, p.42).

A) PRIMEIRIDADE

“O primeiro (primeiridade) é presente e imediato, de modo a não ser segundo para uma representação”.

“Ele é iniciante, original, espontâneo e livre, porque senão seria um segundo em relação a uma causa”.

“Ele não tem nenhuma unidade nem partes. Ele não pode ser articuladamente pensado; afirme-o e ele já perdeu toda sua inocência característica, porque afirmações sempre implicam a negação de uma outra coisa” (2007, p.45).

“Levantemos, por exemplo, algumas instâncias de qualidades de sentir ao imaginarmos um estado mental caracterizado por uma simples qualidade positiva: o sabor do vinho, a qualidade de sentir amor, perfume de rosas, uma dor de cabeça infinita que não nos permite pensar nada, sentir nada, a não ser a qualidade da dor” (2007, p.46).

Trata-se de “estados de disponibilidade, percepção cândida, consciência esgarçada, desprendida e porosa, aberta ao mundo, sem lhe opor resistência, consciência passiva, sem eu, liberta dos policiamentos do autocontrole e de qualquer esforço de comparação, interpretação ou análise. Consciência assomada pela mera qualidade de um sentimento positivo, simples, intraduzível”. (2007, p.46).

É preciso “não confundir a qualidade de sentimento de uma cor vermelha, por exemplo, de um som ou de um cheiro, com os próprios objetos percebidos como vermelhos, sonantes ou cheirosos”. (2007, p.46).

“Consciência em primeiridade é qualidade de sentimento” (2007, p.46).

"Sentimento é, pois, um quase-signo do mundo: nossa primeira forma rudimentar, vaga, imprecisa e indeterminada de predicação das coisas” (p.46).

Segundo Santaella, a primeiridade é a categoria que dá à experiência sua qualidade distintiva.

Não a liberdade em relação a uma determinação física (que seria uma proposição metafísica), mas liberdade em relação a qualquer elemento segundo. Vale lembrar que a primeiridade é um condição para a secundidade.

B) SECUNDIDADE

O estado-quase, daquilo “que é ainda possibilidade de ser” (o primeiro) “deslancha irremediavelmente para o que já é (segundo). Assim, “entramos no universo do segundo” (2007, p.47).

"Há um mundo real, reativo, um mundo sensual, independente do pensamento e, no entanto, pensável, que se caracteriza pela secundidade” (2007, p.47).

“O simples fato de estarmos vivos, existindo, significa, a todo momento, consciência reagindo em relação ao mundo. Existir é sentir a ação de fatos externos resistindo à nossa vontade” (2007, p.47).

“Certamente, onde quer que haja um fenômeno, há uma qualidade, isto é, sua primeiridade. Mas a qualidade é apenas uma parte do fenômeno, visto que, para existir, a qualidade tem de estar encarnada numa matéria. A factualidade do existir (secundidade) está nessa corporificação material.” (2007, p.47).

“Sentimento ou impressão indivisível e sem partes, qualidade simples e positiva, mero tom de consciência é primeiro. Não se confunde com sensação, pois esta tem duas partes: 1) o sentimento e 2) a força da inerência desse sentimento num sujeito. Qualquer relação de dependência entre dois” (2007, p.48).

A secundidade “é a arena da existência cotidiana. Estamos continuamente esbarrando em fatos que nos são externos, tropeçando em obstáculos, coisas reais, factivas que não cedem ao mero sabor de nossas fantasias” (2007, p.47).

“É aquilo que dá à experiência seu caráter factual, de luta e confronto. Ação e reação ainda em nível de binariedade pura, sem o governo da camada mediadora da intencionalidade, razão ou lei (2007, p.51).

C) TERCEIRIDADE

“A terceiridade [...] aproxima um primeiro e um segundo numa síntese intelectual (2007, p.51).

“Corresponde à camada de inteligibilidade, ou pensamento em signos, através da qual representamos e interpretamos o mundo. Por exemplo: o azul, simples e positivo azul, é um primeiro. O céu, como lugar e tempo, aqui e agora, onde se encarna o azul, é um segundo. A síntese intelectual, elaboração cognitiva – o azul no céu, ou o azul do céu –, é um terceiro.” (2007, p.51).

A terceiridade se refere à “generalidade, infinitude, continuidade, difusão, crescimento e inteligência”.

“Mas a mais simples idéia de terceiridade é aquela de um signo ou representação. E esta diz respeito ao modo, o mais proeminente, com que nós, seres simbólicos, estamos postos no mundo” (2007, p.51).

“Diante de qualquer fenômeno, isto é, para conhecer e compreender qualquer coisa, a consciência produz um signo, ou seja, um pensamento como mediação irrecusável entre nós e os fenômenos”(2007, p.51).

Isso se dá no âmbito “do que chamamos de percepção. Perceber não é senão traduzir um objeto de percepção em um julgamento de percepção, ou melhor, é interpor uma camada interpretativa entre a consciência e o que é percebido” (2007, p.51).

“O homem só conhece o mundo porque, de alguma forma, o representa e só interpreta essa representação numa outra representação, que Peirce denomina interpretante da primeira” (2007, p.51).

“Compreender, interpretar é traduzir um pensamento em outro pensamento num movimento ininterrupto, pois só podemos pensar um pensamento em outro pensamento” (2007, p.52).

II) OUTRAS CONSIDERAÇÕES

- “É porque o signo está numa relação a três termos que sua ação pode ser bilateral: de um lado, representa o que está fora dele, seu objeto, e de outro lado, dirige-se para alguém em cuja mente se processará sua remessa para um outro signo ou pensamento onde seu sentido se traduz” (2007, p.52).

- “Esses três possíveis estados da mente não podem ser entendidos como dados estanques” (2007, p.53).

- “Disse Peirce: ‘Nenhuma linha firme de demarcação pode ser desenhada entre diferentes estados integrais da mente, isto é, entre estados tais como sentimento, vontade e conhecimento. É claro que estamos ativamente conhecendo em todos os nossos minutos de vigília e realmente sentindo também. Se não estamos sempre querendo, estamos pelo menos, a todo momento, com a consciência reagindo em relação ao mundo externo’” (apud SANTAELLA, 2007, p.53).

- “Para nós tudo é signo, qualquer coisa que se produz na consciência tem o caráter de signo. No entanto, Peirce leva a noção de signo tão longe a ponto de que um signo não tenha necessariamente de ser uma representação mental, mas pode ser uma ação ou experiência, ou mesmo uma mera qualidade de impressão” (2007, p.53).

- “As definições e classificações de signo formuladas por Peirce são logicamente gerais, quase matemáticas. O nível de abstração exigido para compreendê-las é, sem dúvida, elevado. Entretanto, uma vez assimilado esse campo de relações formais, essa assimilação passa a funcionar para nós como uma espécie de visor ou lente de aumento que nos permite perceber uma multiplicidade de pontos e distinguir sutis diferenciações nas linguagens concretas pelas quais estamos perpassados e com as quais convivemos” (2007, p.57).

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

LINKS ÚTEIS

TEXTOS E OUTRAS FONTES DE PESQUISA


E-BOOK
SANTAELLA, Lúcia. O que semiótica (versão em pdf).

SANTAELLA, Lúcia. Semiótica Aplicada. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2005. (versão em pdf)

TEXTO

GAZINHATO, Danilo. Olhares semióticos sobre a comunicação visual: os recentes estudos dos signos visuais nos materiais publicitários (em pdf)

SITE

PRATES, Eufrasio. Semiótica: uma suave introdução (site)

DEFINIÇÕES GERAIS

O QUE É SEMIÓTICA?

A Semiótica (do grego semeiotiké: a arte dos sinais): pode ser definida como ciência geral dos signos. Estuda os fenômenos culturais como sistemas sígnicos, ou sistemas de significação. Interessa-se pelas linguagens, que são tomadas como sistemas sígnicos (pintura, fotografia, cinema, música, quadrinhos, publicidade, culinária, vestuário, gestos, religião, ciência etc.).

Para Santaella, a semiótica é
a ciência que tem por objeto de investigação todas as linguagens possíveis ou seja, que tem por objetivo o exame dos modos de constituição de todo e qualquer fenômeno como fenômeno de produção de significação e de sentido (2007, p.15).
Para Winfried Nöth, "é a ciência dos signos e dos processos significativos (semiose) na natureza e na cultura". (1995, p.19).

- Quanto ao campo de abrangência da semiótica, Santaella assinala que:
"Seu campo de indagação é tão vasto que chega a cobrir o que chamamos de vida, visto que, desde a descoberta da estrutura química do código genético, nos anos 50, aquilo que chamamos de vida não é senão uma espécie de linguagem, isto é, a própria noção de vida depende da existência de informação no sistema biológico" (2007, p.13).
- A autora chama a atenção para o fato de que o campo da semiótica "[...] é vasto, mas não indefinido. O que se busca descrever e analisar nos fenômenos é sua constituição como linguagem" (2007, p.13)

PRINCIPAIS NOMES

Ferdinand Saussure: linguista e filósofo suíço, é geralmente visto como fundador do estruturalismo, especificamente em seu livro de 1916, Curso de Linguística Geral. Assim como seus contemporâneos, Saussure estava interessado em linguísticas históricas, mas acabou desenvolvendo uma teoria mais geral de semiologia (estudo dos sinais). Sua abordagem se concentrava no exame dos elementos da língua. Ele investigou como esses elementos se relacionavam no presente (sincronicamente, em vez de diacronicamente, como era mais comum na área).

Para Saussure, o signo linguístico é uma entidade de duas faces - um significante (padrão sonoro da palavra, seja sua projeção mental ou sua realização física como parte do ato de falar) e um significado (o conceito ou aquilo que aquela palavra quer dizer).

Seus estudos se diferenciaram das abordagens anteriores, que se interessavam pelo relacionamento entre as palavras e as coisas que elas denominavam no mundo, na história (diacronia). Concentrando-se na constituição interna dos sinais, em vez da sua relação com os objetos no mundo, Saussure se concentrou na anatomia e na estrutura da linguagem, transformando a língua em algo que poderia ser analisado e estudado.

Charles Peirce: filósofo, matemático e cientista estadunidense, definiu a Semiótica a partir da lógica. Muitos consideram a semiótica peirceana como uma Filosofia Científica da Linguagem. Seus estudos levaram ao que ele chamou de Categorias do Pensamento e da Natureza, ou Categorias Universais do Signo: a primeiridade, a secundidade  e a terceiridade (ou o processo, a mediação. É a interpretação e generalização dos fenômenos).a terceiridade.

Diferentemente de Saussure, Peirce concebeu o signo como a partir de uma tripla divisão: representâmen (aquilo que funciona como signo para quem o percebe); objeto (aquilo que é referido pelo signo); interpretante (o efeito do signo naquele – ou naquilo, incluindo outros seres vivos ou dispositivos comunicativos inumanos como os computadores – que o interpreta).

ALGUMAS CORRENTES DA SEMIÓTICA

Semiótica peirceana - interessa-se pela universalidade epistemológica. Suas investigações resultaram em "uma teoria sígnica do conhecimento que busca divisar e deslindar seu ser de linguagem, isto é, sua ação de signo" (SANTAELLA, 2007, p.14).

Semiótica estruturalista/Semiologia (Saussure; Lévi-Strauss; Barthes; Greimas) – interessa-se principalmente pelos signos verbais. Mais recentemente, pelo processo de significação (teoria da significação).

Semiótica russa ou semiótica da cultura (Jakobson; Hjelmslev; Lotman) - interessa-se pela linguagem, literatura e outros fenômenos culturais, como a comunicação não-verbal e visual, mito, religião.

O SIGNO
Concepção saussureana: significado + significante = signo.

“Chamamos signo à combinação do conceito e da imagem acústica [...] Propomos manter a palavra signo para designar o total e substituir conceito e imagem acústica respectivamente por significado e significante” (Curso de LingUística Geral, p.81).

Saussure concebeu o signo linguístico como uma unidade de duas faces: uma imagem acústica e um conceito.

A imagem acústica corresponde à forma verbal arquivada na memória; é a parte mais concreta do signo por sua natureza sensorial, mais próxima dos sentidos.

O conceito é o significado do signo de um modo mais abstrato e, em certo sentido, mais próximo da referência.

Para tornar o conceito de signo linguístico mais técnico, Saussure concebeu dois termos correspondentes às suas facetas: o significante (= imagem acústica) e o significado (= conceito).

Para solidificar este conceito de signo, formulou dois princípios: o da arbitrariedade e o da linearidade do significante.

Significado e significante, segundo o primeiro princípio, se relacionariam de forma arbitrária. Ou seja, não haveria uma relação motivacional entre significado e significante. Não haveria, portanto, nenhuma relação natural entre a idéia de “mar” (o significado), por exemplo, como ele se constitui na realidade, e a seqüência de sons m-a-r (o significante). O signo, dessa forma, depende da convencionalização, o que se dá como processo social, não estando, neste caso, ao alcance do indivíduo o poder de o estabelecer ou alterá-lo.

"O segundo princípio era o de que o significante, de uma natureza auditiva, ocorre no tempo numa ordem linear..."

Concepção peirceana: representâmen + objeto + interpretante = signo.

A semiótica de Peirce denomina-se de triádica, uma vez que o signo se concebe, segundo ele, a partir de três elementos.

Para Peirce, o signo é entendido como algo que representa alguma coisa (objeto) que não pode estar ali. Signo é, portanto, um representâmen, algo que, sob certo aspecto ou de algum modo, representa alguma coisa para alguém; isto é, cria na mente do intérprete (receptor, decodificador) um sinal equivalente (ou um signo melhor desenvolvido), ao qual Peirce chamou de interpretante do primeiro signo.
  • Representâmen: aquilo que funciona como signo para quem o percebe (o pórprio signo que percebemos);
  • Objeto: aquilo que é referido pelo signo;
  • Interpretante: o efeito do signo naquele (ou naquilo, incluindo outros seres vivos ou dispositivos comunicativos inumanos, como os computadores) que o interpreta, dentro de um contexto de significação; processo relacional que se cria na mente do intérprete.