sexta-feira, 11 de outubro de 2013

AS CATEGORIAS DO PENSAMENTO E DA NATUREZA

REFERÊNCIAS
SANTAELLA, Lúcia. O que é semiótica. 26 reimp. São Paulo: Brasiliense, 2007.
BERNARDO, Gustavo. Fenomenologia (verbete). In: CEIA, Carlos (Org). E-dicionário de termos literários. Disponível em: 
http://www2.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/F/fenomenologia.htm. Acesso em: jan.2008.

I) “UMA ARQUITETURA FILOSÓFICA”

No capítulo “Para se ler o mundo como linguagem”, Santaella tece algumas considerações sobre o trabalho mais geral de Charles Peirce, no âmbito filosófico.

- Para Peirce, “a primeira instância de um trabalho filosófico é a fenomenológica” (SANTAELLA, 2007, p.28).

- “A tarefa precípua de um filósofo é a de criar a Doutrina das Categorias, que tem por função realizar a mais radical análise de todas as experiências possíveis” (2007, p.28).

- “Insatisfeito com as categorias aristotélicas, consideradas como categorias mais lingüísticas do que lógicas, [...] influenciado por Kant, mas considerando suas categorias [...] como [...] materiais e particulares e não formais e universais, Peirce dedicou grande parte de sua existência à elaboração, aperfeiçoamento e ampliação do campo de aplicação das suas categorias universais” (2007, p.28).

- Tais categorias “não brotaram nem de pressupostos lógicos, nem da língua, mas do exame atento e perscrutante da ‘experiência’ ela mesma” (2007, p.28).

- “A Fenomenologia (*), como base fundamental para qualquer ciência, meramente observa os fenômenos e, através da análise, postula as formas ou propriedades universais desses fenômenos. Devem nascer daí as categorias universais de toda e qualquer experiência e pensamento” (2007, p.28).

- “Numa recusa cabal a qualquer julgamento avaliativo a priori, a Fenomenologia é totalmente independente das ciências normativas” (2007, p.28).


(*)FENOMENOLOGIA
O termo “fenomenologia” provém de duas palavras gregas – phainomenon (fenômeno) e logos (estudo, ciência). O sentido mais imediato do termo, portanto, remete à ciência ou ao estudo dos fenômenos.
Num sentido mais amplo, a fenomenologia pode ser pensada como uma investigação filosófica, já que ela parte dos fenômenos (aquilo que se apresenta) para lhes conferir uma unidade de sentido.
“A fenomenologia é uma espécie de método que faz a mediação entre o sujeito e o objeto ou, dizendo de outro modo, entre o eu e a coisa” (BERNARDO).
Para Edmund Husserl, conhecido como o fundador da fenomenologia moderna, todos os fenômenos, da mesa mais simples ao evento mais complexo, são reais à medida que compreendidos pela consciência” (BERNARDO).
Tudo nos é informado pelos sentidos e transformado em uma experiência de consciência (em um fenômeno que consiste em se estar consciente de algo). Coisas, imagens, fantasias, atos, relações, pensamentos, eventos, memórias, sentimentos, etc. são fenômenos que constituem nossas experiências de consciência.
"Nós nos apegaríamos à fé na realidade de mesas e mentes porque a concretude do mundo vivido é coberta por grossas camadas de preconceito que nos fazem acreditar em objetos e em sujeitos. É necessário remover ou reduzir essas camadas” (BERNARDO).
"Os objetos devem ser libertos para revelar o que são: nós abstratos de intenções. Esse é o processo conhecido como redução fenomenológica (isto é, do fenômeno)” (BERNARDO).
Da mesma forma, “o eu deve ser liberto para conhecer o que realmente sou: um outro nó abstrato do qual as intenções emanam – essa seria a redução eidética (isto é, do ser).
“Os dois movimentos tornam possível e consciente a sinngebung (isto é, a doação do sentido)” (BERNARDO).

- Entendendo fenômeno como qualquer coisa que esteja de algum modo e em qualquer sentido presente à mente (qualquer coisa que apareça, de modo externo (uma batida na porta, um raio de luz, um cheiro de jasmim), ou interna (uma dor no estômago, uma lembrança ou reminiscência, uma expectativa ou desejo), “a fenomenologia seria, segundo Peirce, a descrição e análise das experiências que estão em aberto para todo homem, cada dia e hora, em cada canto e esquina de nosso cotidiano” (2007, p.32).

- “A fenomenologia peirceana começa, pois, no aberto, sem qualquer julgamento de qualquer espécie: a partir da experiência ela mesma, livre dos pressupostos que, de antemão, dividiriam os fenômenos em falsos ou verdadeiros, reais ou ilusórios, certos ou errados. Ao contrário, fenômeno é tudo aquilo que aparece à mente, corresponda a algo real ou não” (2007, p.32.).

- “Trata-se, portanto, de um estudo que, suportado pela observação direta dos fenômenos, discrimina diferenças nesses fenômenos e generaliza essas observações a ponto de ser capaz de sinalizar algumas classes de caracteres muito vastas, as mais universais presentes em todas as coisas que a nós se apresentam” (p.33).

Para Santaella, são três as faculdades que devemos desenvolver para essa tarefa:
  • capacidade contemplativa, isto é, “abrir as janelas do espírito e ver o que está diante dos olhos”;
  • capacidade de distinguir, discriminar diferenças nessas observações;
  • capacidade de generalizar as observações em classes ou categorias abrangentes (2007, p.33.)
- “Considerando experiência tudo aquilo que se força sobre nós, impondo-se ao nosso reconhecimento, e não confundindo pensamento com pensamento racional (deliberado e auto-controlado), pois este é apenas um dentre os casos possíveis de pensamento, Peirce conclui que tudo que aparece à consciência, assim o faz numa gradação de três propriedades que correspondem aos três elementos formais de toda e qualquer experiência.” (2007, p.33.)

“Em 1867, essas categorias foram denominadas: 1) Qualidade, 2) Relação e 3) Representação” (2007, p.35).

- Depois, o termo relação foi substituído por reação e o termo representação recebeu a denominação mais ampla de mediação. Mas, para fins científicos, Peirce preferiu fixar-se nos termos Primeiridade, Secundidade e Terceiridade, por serem palavras inteiramente novas, livres de falsas associações a quaisquer termos já existentes (2007, p.35).

- “Para se ter uma idéia da amplitude e abertura máxima dessas categorias, basta lembrarmos que, em nível mais geral, a 1º corresponde ao acaso, originalidade irresponsável e livre, variação espontânea; a 2º corresponde à ação e reação dos fatos concretos, existentes e reais, enquanto a 3º categoria diz respeito à mediação ou processo, crescimento contínuo e devir sempre possível pela aquisição de novos hábitos” (2007, p.39).

- “O 3º pressupõe o 2º e o 1º; o 2º pressupõe o 1º; o 1º é livre. Qualquer relação superior a três é uma complexidade de tríades” (2007, p.39).

- Essas três categorias irão para o que poderíamos chamar três modalidades possíveis de apreensão de todo e qualquer fenômeno. Certamente há infinitas gradações entre essas modalidades. Elas se constituem, no entanto, nas modalidades mais universais e mais gerais, através das quais se opera a apreensão-tradução dos fenômenos” (2007, p.42).

A) PRIMEIRIDADE

“O primeiro (primeiridade) é presente e imediato, de modo a não ser segundo para uma representação”.

“Ele é iniciante, original, espontâneo e livre, porque senão seria um segundo em relação a uma causa”.

“Ele não tem nenhuma unidade nem partes. Ele não pode ser articuladamente pensado; afirme-o e ele já perdeu toda sua inocência característica, porque afirmações sempre implicam a negação de uma outra coisa” (2007, p.45).

“Levantemos, por exemplo, algumas instâncias de qualidades de sentir ao imaginarmos um estado mental caracterizado por uma simples qualidade positiva: o sabor do vinho, a qualidade de sentir amor, perfume de rosas, uma dor de cabeça infinita que não nos permite pensar nada, sentir nada, a não ser a qualidade da dor” (2007, p.46).

Trata-se de “estados de disponibilidade, percepção cândida, consciência esgarçada, desprendida e porosa, aberta ao mundo, sem lhe opor resistência, consciência passiva, sem eu, liberta dos policiamentos do autocontrole e de qualquer esforço de comparação, interpretação ou análise. Consciência assomada pela mera qualidade de um sentimento positivo, simples, intraduzível”. (2007, p.46).

É preciso “não confundir a qualidade de sentimento de uma cor vermelha, por exemplo, de um som ou de um cheiro, com os próprios objetos percebidos como vermelhos, sonantes ou cheirosos”. (2007, p.46).

“Consciência em primeiridade é qualidade de sentimento” (2007, p.46).

"Sentimento é, pois, um quase-signo do mundo: nossa primeira forma rudimentar, vaga, imprecisa e indeterminada de predicação das coisas” (p.46).

Segundo Santaella, a primeiridade é a categoria que dá à experiência sua qualidade distintiva.

Não a liberdade em relação a uma determinação física (que seria uma proposição metafísica), mas liberdade em relação a qualquer elemento segundo. Vale lembrar que a primeiridade é um condição para a secundidade.

B) SECUNDIDADE

O estado-quase, daquilo “que é ainda possibilidade de ser” (o primeiro) “deslancha irremediavelmente para o que já é (segundo). Assim, “entramos no universo do segundo” (2007, p.47).

"Há um mundo real, reativo, um mundo sensual, independente do pensamento e, no entanto, pensável, que se caracteriza pela secundidade” (2007, p.47).

“O simples fato de estarmos vivos, existindo, significa, a todo momento, consciência reagindo em relação ao mundo. Existir é sentir a ação de fatos externos resistindo à nossa vontade” (2007, p.47).

“Certamente, onde quer que haja um fenômeno, há uma qualidade, isto é, sua primeiridade. Mas a qualidade é apenas uma parte do fenômeno, visto que, para existir, a qualidade tem de estar encarnada numa matéria. A factualidade do existir (secundidade) está nessa corporificação material.” (2007, p.47).

“Sentimento ou impressão indivisível e sem partes, qualidade simples e positiva, mero tom de consciência é primeiro. Não se confunde com sensação, pois esta tem duas partes: 1) o sentimento e 2) a força da inerência desse sentimento num sujeito. Qualquer relação de dependência entre dois” (2007, p.48).

A secundidade “é a arena da existência cotidiana. Estamos continuamente esbarrando em fatos que nos são externos, tropeçando em obstáculos, coisas reais, factivas que não cedem ao mero sabor de nossas fantasias” (2007, p.47).

“É aquilo que dá à experiência seu caráter factual, de luta e confronto. Ação e reação ainda em nível de binariedade pura, sem o governo da camada mediadora da intencionalidade, razão ou lei (2007, p.51).

C) TERCEIRIDADE

“A terceiridade [...] aproxima um primeiro e um segundo numa síntese intelectual (2007, p.51).

“Corresponde à camada de inteligibilidade, ou pensamento em signos, através da qual representamos e interpretamos o mundo. Por exemplo: o azul, simples e positivo azul, é um primeiro. O céu, como lugar e tempo, aqui e agora, onde se encarna o azul, é um segundo. A síntese intelectual, elaboração cognitiva – o azul no céu, ou o azul do céu –, é um terceiro.” (2007, p.51).

A terceiridade se refere à “generalidade, infinitude, continuidade, difusão, crescimento e inteligência”.

“Mas a mais simples idéia de terceiridade é aquela de um signo ou representação. E esta diz respeito ao modo, o mais proeminente, com que nós, seres simbólicos, estamos postos no mundo” (2007, p.51).

“Diante de qualquer fenômeno, isto é, para conhecer e compreender qualquer coisa, a consciência produz um signo, ou seja, um pensamento como mediação irrecusável entre nós e os fenômenos”(2007, p.51).

Isso se dá no âmbito “do que chamamos de percepção. Perceber não é senão traduzir um objeto de percepção em um julgamento de percepção, ou melhor, é interpor uma camada interpretativa entre a consciência e o que é percebido” (2007, p.51).

“O homem só conhece o mundo porque, de alguma forma, o representa e só interpreta essa representação numa outra representação, que Peirce denomina interpretante da primeira” (2007, p.51).

“Compreender, interpretar é traduzir um pensamento em outro pensamento num movimento ininterrupto, pois só podemos pensar um pensamento em outro pensamento” (2007, p.52).

II) OUTRAS CONSIDERAÇÕES

- “É porque o signo está numa relação a três termos que sua ação pode ser bilateral: de um lado, representa o que está fora dele, seu objeto, e de outro lado, dirige-se para alguém em cuja mente se processará sua remessa para um outro signo ou pensamento onde seu sentido se traduz” (2007, p.52).

- “Esses três possíveis estados da mente não podem ser entendidos como dados estanques” (2007, p.53).

- “Disse Peirce: ‘Nenhuma linha firme de demarcação pode ser desenhada entre diferentes estados integrais da mente, isto é, entre estados tais como sentimento, vontade e conhecimento. É claro que estamos ativamente conhecendo em todos os nossos minutos de vigília e realmente sentindo também. Se não estamos sempre querendo, estamos pelo menos, a todo momento, com a consciência reagindo em relação ao mundo externo’” (apud SANTAELLA, 2007, p.53).

- “Para nós tudo é signo, qualquer coisa que se produz na consciência tem o caráter de signo. No entanto, Peirce leva a noção de signo tão longe a ponto de que um signo não tenha necessariamente de ser uma representação mental, mas pode ser uma ação ou experiência, ou mesmo uma mera qualidade de impressão” (2007, p.53).

- “As definições e classificações de signo formuladas por Peirce são logicamente gerais, quase matemáticas. O nível de abstração exigido para compreendê-las é, sem dúvida, elevado. Entretanto, uma vez assimilado esse campo de relações formais, essa assimilação passa a funcionar para nós como uma espécie de visor ou lente de aumento que nos permite perceber uma multiplicidade de pontos e distinguir sutis diferenciações nas linguagens concretas pelas quais estamos perpassados e com as quais convivemos” (2007, p.57).

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